Afronegócio + Feira Preta

Empreendedora negra focada em gastronomia afro-brasileira

Gastronomia ancestral e o protagonismo das mulheres negras

Postado em: 12 de Fevereiro de 2026 às 08:30 Por Redação

A gastronomia ancestral de herança africana ocupa um lugar central na formação cultural, social e econômica do Brasil. Mais do que um conjunto de receitas, ela representa um sistema de saberes construído ao longo do tempo, transmitido de geração em geração, principalmente por mulheres negras. Esses conhecimentos, muitas vezes aprendidos fora dos espaços formais de ensino, moldaram práticas alimentares, identidades e trajetórias profissionais que seguem influenciando o presente.

Ao analisar a culinária brasileira, é possível reconhecer com clareza a presença desses saberes ancestrais. O uso de ingredientes como azeite de dendê, coco, feijões, raízes, folhas e especiarias, assim como o respeito ao tempo de preparo e à coletividade, revela uma herança africana profundamente enraizada. Esses elementos não apenas estruturaram a cozinha nacional, mas também formaram modos de cozinhar que carregam memória, espiritualidade e pertencimento.

A transmissão desses conhecimentos sempre esteve fortemente ligada às mulheres. Mães, avós e outras referências femininas foram responsáveis por ensinar não apenas técnicas culinárias, mas também valores associados ao alimento, como cuidado, partilha, resistência e respeito à ancestralidade. Esse aprendizado, muitas vezes invisibilizado e desvalorizado, foi essencial para a formação de inúmeras cozinheiras e profissionais da gastronomia, que hoje reconhecem nesses saberes a base de sua atuação.

Na minha trajetória, assim como na de muitas mulheres ao meu redor, esses ensinamentos ancestrais foram determinantes para a construção do olhar, do paladar e da forma de compreender a cozinha. Aprender observando, repetindo gestos e respeitando os ensinamentos transmitidos ao longo do tempo foi o que possibilitou tornar-me a cozinheira que sou hoje. Esse mesmo processo formou outras mulheres próximas, criando um ciclo contínuo de aprendizado, troca e fortalecimento coletivo.

Esses saberes não permanecem restritos ao passado ou ao ambiente doméstico. Na contemporaneidade, eles se transformaram em ferramentas concretas de geração de trabalho, renda e autonomia. Muitas mulheres negras passaram a transformar o conhecimento herdado em empreendimentos gastronômicos, atuando em feiras populares, eventos culturais, restaurantes, serviços de alimentação e produções artesanais. A culinária ancestral, nesse contexto, deixa de ser apenas herança cultural e passa a ser também estratégia de sobrevivência e desenvolvimento econômico.

O empreendedorismo feminino negro na gastronomia tem impacto direto na economia local. Esses negócios movimentam cadeias produtivas que envolvem agricultores familiares, pescadores, feirantes e pequenos produtores, fortalecendo territórios historicamente marginalizados. Ao empreender a partir de saberes ancestrais, essas mulheres acessam o mercado com identidade, autenticidade e valor cultural agregado, ressignificando o lugar da cozinha como espaço de conhecimento, inovação e poder econômico.

Outro aspecto relevante é o reconhecimento social dessas mulheres como detentoras de saberes legítimos. Ao ocuparem espaços de visibilidade e liderança, cozinheiras negras rompem com a lógica histórica que relegava seus conhecimentos à informalidade ou ao ambiente doméstico. A gastronomia passa a ser compreendida como campo técnico, cultural e político, capaz de gerar transformação social e fortalecer identidades.

A influência desses saberes também dialoga com demandas contemporâneas, como a valorização da cultura alimentar local, a busca por alimentação mais consciente e o interesse por narrativas de origem. Nesse cenário, a gastronomia ancestral ganha destaque como prática viva, que conecta passado e presente, tradição e inovação. Mulheres negras assumem, nesse processo, o papel de protagonistas, transmissoras de conhecimento e agentes de mudança.

É importante reconhecer que esses saberes ancestrais também influenciam a forma como muitas mulheres negras se posicionam no mundo do trabalho. A experiência acumulada na cozinha, aliada à memória afetiva e cultural, fortalece a autoconfiança e amplia a percepção de valor sobre o próprio conhecimento. Ao compreender que aquilo que foi aprendido de forma oral e prática possui legitimidade histórica e técnica, essas mulheres passam a se reconhecer como profissionais, empreendedoras e formadoras de opinião.

Além disso, a gastronomia ancestral cria redes de apoio e pertencimento entre mulheres. O compartilhamento de saberes, receitas e experiências constrói ambientes de troca que fortalecem trajetórias coletivas. Muitas histórias profissionais não se desenvolvem de forma isolada, mas a partir da inspiração mútua, do incentivo e da observação entre mulheres que compartilham vivências semelhantes. Esse movimento garante a continuidade da tradição e amplia o impacto social e econômico da culinária de matriz africana.

Apesar dos avanços, mulheres negras empreendedoras da gastronomia ainda enfrentam desafios estruturais, como acesso limitado a crédito, formalização, infraestrutura e políticas públicas específicas. No entanto, iniciativas de apoio ao empreendedorismo negro, redes colaborativas e programas de valorização da cultura alimentar têm ampliado possibilidades, reconhecendo esses saberes como ativos estratégicos para o desenvolvimento econômico e cultural.

Dessa forma, a gastronomia ancestral de herança africana revela-se não apenas como patrimônio cultural, mas como força viva que molda trajetórias, forma profissionais e gera impacto social. Ao analisar esse percurso a partir da vivência pessoal e da observação de outras mulheres, torna-se evidente que esses saberes continuam sendo fundamentais para a construção de autonomia, identidade e futuro para mulheres negras na gastronomia brasileira.

 

Minibio

 

A Chef Mannu Bombom fala sobre gastronomia ancestral e o protagonismo feminino nessa área

 

Chef Mannu Bombom é soteropolitana, 40 anos, cozinheira baiana e referência na valorização da culinária afro-baiana. Sua trajetória na cozinha começou ainda na infância, a partir dos saberes transmitidos pelas mulheres de sua família, onde aprendeu que cozinhar é um ato de memória, afeto e resistência. Possui formação em Gastronomia pelo Instituto Gastronômico das Américas (IGA) e segue em formação pelo Centro Universitário Cruzeiro do Sul.

Reconhecida por sua cozinha autoral, é criadora da coxinha de vatapá, prato premiado pelo programa Panela de Bairro, da TV Bahia, em 2025. Suas receitas refletem a fusão entre criatividade, influências familiares e as descobertas adquiridas em viagens, bares e restaurantes, sempre exaltando os sabores da culinária afro-baiana.

Há cerca de cinco meses, inaugurou o restaurante Sabores do Recôncavo, na tradicional Feira de São Joaquim, em Salvador, onde oferece a famosa coxinha de vatapá e outras delícias que celebram a cultura alimentar da Bahia. Além do restaurante, atua com buffet e eventos, utilizando a gastronomia como instrumento de valorização cultural e fortalecimento do empreendedorismo negro.

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