Empreendedorismo

Paraisópolis: comunidade se une para enfrentar impactos no comércio

Postado em: 24 de Julho às 05:00 Por Gabriel Sestrem

Associação de moradores de Paraisópolis cria iniciativas para enfrentamento ao Covid-19 e beneficia comerciantes da comunidade

O bairro Paraisópolis, localizado na capital paulista, vive um momento bastante diferente de outros bairros da cidade, com a taxa de óbitos relacionados ao Covid-19 sendo menor do que a metade da média municipal. Os bons índices são resultado de uma intensa organização da própria comunidade, que decidiu agir para evitar que um impacto maior recaísse sobre a região.

Diante do desafio de conter a propagação do coronavírus e de manter a  geração de renda dos habitantes, a população se organizou por meio da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis (UMCP), associação de moradores da comunidade, e criou uma série de iniciativas para minimizar os impactos da pandemia.

Além de contribuir com a preservação da qualidade de vida dos moradores reduzindo as contaminações, as lideranças regionais também criaram iniciativas de incentivo ao consumo local, motivando os habitantes a comprarem dos pequenos negócios e manterem suas atividades funcionando.

EMPREENDEDORES DE PARAISÓPOLIS

Para Janez dos Santos Venas, proprietário da Bolos Caseiros dos Baianos, as ações colocadas em prática pelos líderes comunitários foram essenciais para que a população mantivesse os índices de contaminação sob controle e para que as principais necessidades dos moradores fossem atendidas. Com isso, as pessoas puderam, dentro do possível e com todas as limitações próprias da quarentena, manter suas atividades de geração de renda.

“Além de toda a conscientização e das ações para beneficiar a população, como entrega de alimentos e até mesmo de máscaras para a população, as iniciativas de apoio ao comércio local foram essenciais”, destaca o empreendedor. “Esse incentivo foi muito positivo por vários motivos: os moradores não precisam sair do bairro para fazer suas compras, favorecendo a redução da circulação de pessoas, e isso contribuiu também para que os comércios mantivessem as vendas e, consequentemente, para que a renda de várias famílias fosse mantida”, observa.

“Aqui em Paraisópolis, o comércio é essencial para nós. Muitas vezes as pessoas enxergam as grandes empresas como as principais geradoras de emprego, mas quem cria mais oportunidades são os pequenos negócios. Com a nossa casa de bolos são cinco famílias que têm seu sustento vindo daqui. Em Paraisópolis há um grande número de empregos gerados pelos pequenos estabelecimentos, e tudo isso movimenta nossa economia e faz com que ninguém precise sair daqui para comprar o que precisa. Além disso, muita gente não teria oportunidade nenhuma se não fosse a renda vinda dos empregos gerados aqui”, explica Janez.

Mesmo com redução dos impactos da pandemia a partir da organização dos moradores, Janez precisou colocar em prática medidas de adaptação para impulsionar as vendas por delivery dos bolos caseiros. Para isso, contratou mais um motoboy – o empreendimento já contava com uma pessoa para entregar os bolos – e até mesmo o próprio empreendedor passou a fazer algumas das entregas. Além disso, ele decidiu investir mais na divulgação de vídeos dos seus produtos (gravados com o próprio celular) no status do WhatsApp, no perfil da casa de bolos nas redes sociais e até mesmo em grupos de moradores da região no Facebook. Com essas medidas, a queda nas vendas não foi tão severa, mantendo-se entre 20 a 25% ao mês.

Academia Assaí - Paraisópolis enfrenta os impactos da quarentena
Janez dos Santos Venas, proprietário da Bolos Caseiros dos Baianos

Teomila Veloso Santos, proprietária do Point do Acarajé da Mila, também aponta as ações de enfrentamento ao Covid-19 por parte da comunidade como essenciais para preservar as condições mínimas de qualidade de vida da população. “Nossa liderança comunitária tem ajudado muito a comunidade com essas ações. Isso traz segurança também para nós, pequenos empreendedores, que somos responsáveis por gerar renda para diversas famílias”, conta Teomila, que emprega quatro pessoas em seu negócio.

Como a empreendedora tinha a maioria de suas vendas vinculadas ao quiosque de acarajé, localizada em um ponto movimentado do bairro, viu suas vendas caírem até 75%. “No início pensei que ia ficar louca de tanta preocupação. Mas, com as adaptações, principalmente relacionadas ao delivery, as coisas vêm melhoraram aos poucos”, conta a empreendedora.

TRANSFORMAÇÃO NA PRÁTICA

Paraisópolis é a segunda maior favela de São Paulo. Com cerca de 100 mil habitantes, a aglomeração é um desafio constante. Porém há outras dificuldades significativas que ganharam maior força a partir do início da pandemia e que os moradores locais precisam lidar diariamente. Problemas como falta de água, de saneamento básico, de emprego e renda e de itens básicos de alimentação já existiam antes da pandemia, mas foram ainda mais agravados.

Para alcançar índices de efetividade no combate ao novo coronavírus superiores à média da capital paulista e proporcionar maior qualidade de vida aos moradores durante a pandemia, a UMCP lançou mão de um intenso trabalho educacional para transmitir aos habitantes de Paraisópolis as melhores práticas de higiene e demais cuidados de prevenção, além de reforçar a necessidade de isolamento, utilizando inclusive carros de som para veicular mensagens de conscientização nas ruas do bairro.

Academia Assaí - Paraisópolis enfrenta os impactos da quarentena
Sede da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis (foto registrada antes do início do isolamento social por Josiane Paixão)

A comunidade também se organizou para identificar com rapidez as pessoas que apresentavam sintomas da doença para encaminhá-las aos centros de acolhimento, também organizados pelos moradores. Nesses centros, que funcionam como casas de acolhimento para isolar os contaminados e evitar a transmissão local, as pessoas recebem seis refeições por dia e têm suas condições de saúde monitoradas a todo tempo.

Além disso, a associação buscou criar mecanismos para entender a situação de cada família e intervir diante das principais necessidades, principalmente quanto àquelas que tiveram grande perda de renda como reflexo do fechamento dos comércios.

Há várias outras estratégias em andamento, sendo uma delas a contratação de três ambulâncias para fazer os atendimentos necessários na comunidade desde o início da quarentena. Essas ambulâncias já atenderam mais de 4 mil famílias.

Como resultado desse trabalho, viabilizado a partir de doações e parcerias privadas, a comunidade soma números impressionantes: de acordo com o Instituto Pólis, em maio, a taxa de mortalidade pelo Covid-19 na região era de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto a média municipal era de 56,2. Além disso, de acordo com dados da prefeitura de São Paulo, a mortalidade pelo novo coronavírus em outros bairros pobres é até dez vezes maior do que Paraisópolis.

Mesmo em um cenário de grande adversidade, Paraisópolis deixa uma importante lição sobre a importância da união entre os moradores das comunidades e a função essencial dos pequenos negócios como geradores de emprego e renda.
 

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