Empreendedorismo

Kitanda das Minas: um negócio para se inspirar e fortalecer

Postado em: 24 de Março de 2021 às 18:40 Por Redação

Você saberia dizer qual é a principal mudança que o empreendedorismo trouxe para você? Para muitas pessoas, empreender leva a um encontro com propósitos de vida.

Empreender é uma atitude que exige coragem, organização, determinação e resiliência. Para o último conteúdo da nossa série Mulheres Empreendedoras, trouxemos um case muito especial, que carrega com vigor todas essas características.

A Kitanda das Minas já foi pauta de matéria aqui no blog. Vencedora do Prêmio Academia Assaí Bons Negócios, colecionou diversas conquistas desde sua última participação, em 2018.

Gerenciado por Priscila Novaes, chef gastronômica e proprietária da Kitanda, o negócio mantém os mesmos princípios de 3 anos atrás: destacar o sabor da comida afro e dar o merecido valor à mulher negra, em todos os aspectos.

Há três anos, a Kitanda das Minas trabalhava com o atendimento em eventos – e uma das metas de Priscila na época era montar um ponto fixo para que seus clientes pudessem consumir e frequentar o espaço sem precisar ter que ir a um evento específico, tendo um contato bem mais próximo.

Três anos depois, em setembro de 2020, mesmo em meio à pandemia, a  empresária concluiu esse sonho: hoje, a Kitanda das Minas tem um ponto fixo para atendimento em um local muito simbólico para a cultura negra no Brasil: o bairro da Liberdade, em São Paulo.

Mas, antes de falarmos sobre seu sucesso, que tal conhecermos um pouco sobre a trajetória do empreendimento e seus desafios ao longo do caminho?

Do descontentamento ao encontro de propósitos

Priscila começou a empreender em 2009, logo após deixar seu emprego. Na época, a Chef conta que não gostava mais das atividades que exercia e queria fazer algo na cozinha, um ofício que sempre amou.

“Empreender mudou minha vida não apenas no campo profissional. Para mim, houve uma transformação na minha visão de mundo e de vida, afinal, por se tratar de um nicho gastronômico, a Kitanda me mostrou e ensinou diversas questões relacionadas à minha história e ancestralidade”, conta.

Para cada momento, um novo desafio

Nos outros materiais desta série, nós já apresentamos alguns dados referentes às principais diferenças sociais entre uma mulher e um homem no mundo do empreendedorismo. 

Tendo isso em vista, a Kitanda das Minas é um empreendimento 100% feminino, criado por uma mulher negra e periférica. Nesse sentido, Priscila nos conta que os desafios e as adversidades de seu negócio foram diferentes em cada etapa.

Em um primeiro momento, seu desafio foi relacionado à área do conhecimento. Mesmo sabendo cozinhar muito bem, a profissional afirma que “somente o dom” não era suficiente para gerenciar um empreendimento, por isso, correr atrás de capacitação foi fundamental para o sucesso do negócio.

Recentemente, produzimos um material sobre esse tema e trouxemos alguns exemplos de formas de estudo para ajudar na capacitação profissional. Se quiser conferir o artigo, clique aqui.

Além disso, Priscila conta que ter o apoio da família diante da decisão de empreender também influenciou diretamente sua trajetória: “Por mais que a família te apoie, muitas vezes, ela não concorda que você deixe um trabalho que te traz estabilidade para ser empreendedora e assumir tantos riscos”, explica a profissional.

Enxergando-se como empreendedora

Academia Assaí - Kitanda das Minas: um negócio para se inspirar e fortalecer

Ver-se como empreendedora também já foi um desafio na vida de Priscila. Para ela, uma mulher que trabalha com a venda de alimentos é tida pela sociedade como uma “sobrevivente”, ou seja, trabalhar com o preparo e a venda de refeições e quitutes é visto pela grande maioria como “um meio de sobrevivência”.

“Quando a sociedade vê uma mulher empreendendo no setor de alimentação, automaticamente ela nos coloca em uma posição de vulnerabilidade, como se aquele ofício fosse a única maneira possível da mulher ganhar dinheiro, diminuindo todo o mérito por seu trabalho, como se produzir bolos e salgados fosse uma atividade fácil, que pudesse ser feita por qualquer pessoa”, afirma.

Outro ponto na encruzilhada da Kitanda das Minas foi o de pensar em como perpetuar o negócio, a fim de crescer cada vez mais. “Uma empreendedora de periferia empreende pela subsistência – e o que ela produz hoje é o que paga a conta amanhã. Por isso, para mim, encontrar uma forma de garantir maneiras de criar um negócio estável e que cresça de forma escalável foi um grande desafio”, diz Priscila.

Moldando perspectivas e opiniões

Academia Assaí - Kitanda das Minas: um negócio para se inspirar e fortalecer

A chef traz, ainda, uma reflexão sobre como a cozinha tem significados diferentes dependendo do gênero. Historicamente, a cozinha é considerada um lugar de desvalorização quando temos uma mulher no comando – e isso é comprovado ao crescermos ouvindo frases como “lugar de mulher é na cozinha”.

“O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Então, mulheres na cozinha, principalmente mulheres negras, ainda é tido como algo que é fácil para nós, devido a questões históricas. Esse é mais um momento em que a mão de obra feminina e toda a nossa dedicação, estudo e liderança são desvalorizados, porque o senso comum nos faz acreditar que saber cozinhar é um dom natural da mulher, assim como a maternidade", afirma Priscila.

A profissional ainda completa afirmando que o oposto acontece quando um homem exerce o papel de liderança na cozinha. “Diferentemente da mulher, quando o homem decide empreender no setor alimentício, seu empenho é visto pela sociedade como um estudo, um investimento e uma carreira construída por meio da especialização”.

Viu só a diferença? Reconhecer, respeitar e valorizar a dedicação de mulheres empreendedoras, principalmente no setor alimentício, é o mínimo que podemos fazer para mudar essa percepção social e elevarmos os níveis de equidade de gênero.

Dupla jornada

Sim, a dupla jornada é uma realidade comum na vida de mulheres que empreendem. Segundo dados do SEBRAE, 65% das empreendedoras brasileiras decidiram abrir um negócio após a maternidade.

“Diferentemente da grande maioria dos empreendedores do sexo masculino, uma mulher com um negócio próprio ‘deve’ encontrar maneiras para conseguir lidar com todas as demandas vindas do empreendimento e, em meio a isso, ainda dar conta dos afazeres domésticos e dos cuidados com os filhos”, comenta Priscila.

Para a chef, essa diferenciação de tarefas é o que faz com que tantas mulheres empreendam no setor alimentício, porque enxergam no setor uma oportunidade de ganhar dinheiro e conciliar os afazeres domésticos.

Descobrindo propósitos de vida

Academia Assaí - Kitanda das Minas: um negócio para se inspirar e fortalecer

Sabe a pergunta que fizemos no início do texto? Na vida de Priscila, o empreendedorismo foi uma maneira de se reconectar com suas origens, conhecer melhor a cultura de seus antepassados e, principalmente, gerar reflexões e mudanças reais na maneira como o ofício de cozinhar era visto pela sociedade.

“Eu sempre gostei de cozinhar, entretanto, nunca pensava em seguir na função, por conta de uma questão de desvalorização    mercadológica. Hoje, posso afirmar que eu tenho um propósito com a Kitanda das Minas e, mais do que isso, um legado”, comenta.

Conhecer o impacto nas áreas políticas, econômicas e sociais na história das mulheres quitandeiras, das baianas do acarajé, das mulheres de tabuleiro e tudo o que há por trás da atuação de mulheres que empreendem na área de alimentos é motivo de grande orgulho para a chef.

“Me sinto honrada em reproduzir e recriar as receitas dos meus antepassados, incluindo em um prato que é tão simbólico para a população preta um pouco da minha trajetória e da minha vivência.”

A Kitanda das Minas é um negócio de impacto social, inclusive na minha vida enquanto empreendedora, porque me ajudou a reencontrar minha autoestima por meio do trabalho e mudou minha visão de mundo. Sinto também que o mesmo acontece com as meninas que trabalham comigo e me têm como uma referência, porque temos histórias muito parecidas. Transformamos a cozinha em um espaço acolhedor, compartilhado e receptivo, para que todas possam trazer discussões importantes e exclusivas a nós, mulheres, sem nenhum rótulo social, finaliza a chef.

Histórias como a da Priscila nos trazem orgulho e reflexões sobre como devemos agir para que a sociedade possa ser gradativamente mais inclusiva e igualitária em questões de gênero e raça.

Você pode conferir os outros materiais desta série aqui:

1 - Empreendedorismo Feminino: Conheça a história de um Negócio Lucrativo

2 - Empreendedora na Terceira Idade: Conheça esse case

3 - Mulheres Em Foco: Conheça como a Japas Cervejaria revolucionou o setor

Acompanhe o trabalho da Kitanda das Minas pelas redes sociais e fique de olho na Academia Assaí, porque ainda temos muitas histórias para o(a) inspirar.
 

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